O problema não é não ler as entrelinhas, é não ler o que
está escancarado depois de tantos papos e choros de embriaguez. Você lê o
supérfluo mesmo quando o bilhete tá coloquialmente escrito e pregado na
geladeira, do jeito que você gosta de ler quando busca água pela manhã. Um dos meus defeitos, mania, sei lá, é
enaltecer os detalhes e acredito que melhorei muito quanto a isso. Acontece que
as suas falhas já não estão intrínsecas nos fatos cotidianos, elas gritam aos
meus olhos. Alto. Meu juízo já não responde por mim e a minha língua ferina é
contida pelos desaforos que eu digo mentalmente e que você não aguentaria
ouvir. Uma coisa em mim diz “vai fundo, joga a merda pra fora, limpa o ciclo,
lava a alma”, mas eu não consigo, sei que nada mudaria. Nem a embriaguez foi
capaz de me fazer cem por cento sincera com qualquer um em qualquer assunto. Eu
sei o poder que as palavras tem sobre as risadas de alguém porque já vi as
minhas se desmancharem em algumas frases ditas da alma pra fora. Aprendi que quando
não é cuspida na nossa cara, a verdade deve ser mantida em total sigilo pra não
amputar membros consideráveis da nossa existência. Não sei se atribuo à sorte ou ao azar o momento
em que somos cuspidos, em que simplesmente nos tornamos espectadores do nosso
próprio mundo e reconhecemos os falsos pilares que acreditamos sustentar o que
somos. Não sei se é pior enxergar além do meu campo de visão ou ter continuado
submissa aos seus julgamentos. Talvez a submissão me rendesse só amor e eu
tivesse me tornado uma daquelas mocinhas de filme que se alimenta unicamente do
sentimento que o outro nutre por ela. Talvez eu estivesse mais feliz. Mas se eu
não tivesse me deixado levar no passado, talvez você já soubesse ler as
entrelinhas e os bilhetes na geladeira. Talvez. Talvez não haja erros, apenas
um amor que não morreu, mas que também não aprendeu, que estagnou nas mentiras
e sufocamentos de outrora e não consegue mais emergir do misto de culpa,
verdades e intolerâncias. A gente tá tentando salvar um barco que já naufragou.
Não temos mais botes salva-vidas nem âncora. Somos aquela cena de “Titanic” em
que a mocinha chama por seu príncipe e ele já está inerte, imerso no gelo e no
silêncio. Nós somos o príncipe quase constantemente e o nosso amor é aquele
navio despreparado e cansado de tantos acidentes, de tantos obstáculos. De
tanto chamar sua atenção pro que realmente me importava – e de você não
entender nada quase sempre- me vejo sozinha tentando mudar de nome num navio
estrangeiro tentando chegar a algum lugar. E agora que eu quero chegar no final
desse texto, sinto a necessidade de dizer que eu não quero estar num navio diferente e também não quero
gritar em vão nem não conseguir te ouvir. Eu quero paz. Aquela paz que aparece
no início do filme com pessoas bem vestidas, falsidade escondida por entre as
paredes, jantares esplêndidos e nenhuma preocupação. Eu quero ter aquela mesma
euforia do Jack quando ganha o bilhete premiado sem saber o que esperar, mas ao
mesmo tempo aliviado por ter encontrado algo pra acreditar e seguir. Eu já não
sigo por não acreditar. Talvez as pessoas que correm alguma maratona e chegam
em segundo lugar por fração de segundo
tenham a mesma sensação. O problema é que eu não quero nada de
segunda. Eu quero sábados e domingos
rodeados de amigos, hipocrisia, bebida e seus beijos. Eu quero deitar no teu colo sem pensar que
dali a pouco eu posso não estar ali. Queria muito pensar que isso é mais uma
daquelas crises loucas que vira e mexe atormentam minhas ideias, mas sinto que
é diferente. Sinto que não há nada mais pra se segurar, nem uma borda, nem uma
boia. É melhor pular fora antes que eu me afogue e você não saiba mais como
nadar.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Gaza
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Tô, vou, quero
A ansiedade de chegar em algum lugar mata pouco a pouco todos os passos previamente mentalizados. Meu destino, minha sina ou o deus que me rege brinca de antropofagia e faz tudo virar um caos. Se viver é se surpreender sempre, tô vivendo bem. Sempre às escuras, olho as luzes pela cidade e peço em silêncio pra que um feixe de esperança caia das estruturas de concreto sobre meu caminho meio torto, vago, meio quase nada. E ando querendo mudar querendo permanecer.
Uma bússola, uma vela ou um lampião. Um mapa. Mesmo que eu já tenha riscado sobre ele o xis. Por favor. Não queira ser tão mau comigo assim, não sou dos males o pior. É bem verdade que não sou um doce, mas tenho algo fincado na alma que faz o sangue correr quente e impulsionar o amor pra fora de uma maneira quase hostil. Tenho uma marca no peito, cicatriz do que eu guardo a sete chaves. Se você enxergasse, veria que minhas linhas começam suaves e à medida que as palavras correm, cortam o papel porque é nele que eu deposito toda a minha força. Talvez a minha maior cicatriz seja essa e todas as outras folhas que já rabisquei.
Minhas palavras são como as pessoas que passam por mim: no início cada uma tem sentido e é indispensável, depois se encerram ou engasgam em algum ponto sendo eliminadas, reorganizadas ou modificadas. Não sei se por conta da minha constante inconstância ou por falta de tempero e paixão por parte delas. Cada uma vale o que transmite e pra mim é tudo uma questão de harmonia e bom senso, quase nunca de estilística. Não faz meu tipo. Até mesmo os palavrões se instalam e são bem-vindos, às vezes eles caem bem. Bem até demais.
Tem vezes que a vontade de gritar é enorme, mas a boca é incapaz de proferir qualquer coisa a não ser seu nome. E tem horas que o choro é a melhor resposta, horas em que molhar o papel é melhor do que enchê-lo de sensatos devaneios. É quando a lágrima se faz determinante, que todo grito, toda palavra, padece sob a verdade incontestável do silêncio.
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