segunda-feira, 17 de abril de 2017

Teto lunar

Não olhei pra lua no dia que todos a admiravam
Talvez seja essa a metáfora de minha existência
Teimosia vez ou outra faz cair de precipício e morro
a cada lua - cheia - até de mim

Deito-me, sem fitá-la, sob sua luz de misericórdia
Sobrecarregada de desapontamento
Esperando por um amor de cheiro doce e beijo quente
Tal qual essa noite que invade meus pulmões

Respiro e exalo o passado maculando a atmosfera
Os nós dos dedos dormentes, entrelaçados,
ensaiam a prece recorrente à confissão dos olhos
Ainda por encararem o circular clarão

Enquanto sorrisos abrem-se pro céu
Cativo inerte medos e memórias
As palavras já ditas assumem tons de arrependimento
A saudade aflita dos arrepios em nucas alheias
Provocados pelo querer

Pêlos excitados com vida nova e calor
O suor de desespero umedecendo os corpos nus
Este sumo salgado escandalizando o próximo ato, pra alguns
E remoendo na garganta de outros, o ressentimento

Cada qual na sua pele, compondo a naturalidade do universo
Brilhos singulares, displicentes, pelo mundo
Amontoados viram força de luz - incandescente
Somos constelação

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Caótica

O caos me faz produzir ao passo que aos poucos morro por dentro a cada linha. E amo essa sensação de sofrer a cada palavra floreada, a cada combinação semântica, a cada sujeito oculto representando uma alegria ou uma decepção. É no caos que me encontro depois de uma longa procura, é nele que despejo a angústia num copo pra beber mais tarde no mesmo bar. É ali que vou ao chão enfraquecida pela embriaguez e também onde me reergo endurecida pelos socos diários. É na bagunça da cabeça, no meu conflito, na minha zona de guerra onde organizo as paranoias por prioridade e decido qual servirá de travesseiro noite após noite. O caos é amor, ora o próprio ora o que espalho, sendo este, na maioria das vezes, recolhido já destroçado, pronto pra virar mais um mosaico preso à parede do meu quarto, mais um quadro cubista, retrato do niilismo do meu coração.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Amor e outras drogas


Tenho dormido profundamente, bebido além da conta, fumado um cigarro atras do outro, sentido muita angústia, entregue demais a saudade no quarto escuro sozinha pensando no desamor que desencadeou os exageros. Nunca sou oito, sempre oitenta, duzentos e vinte volts, vinte quatro anos, seis ao lado seu, esse amor filho pródigo, primogênito, nosso desequilíbrio e refúgio, nossa eterna contradição. 
A noite mastiga meu peito e me engole, me cospe indefesa refém desse afeto que, de fato, não passa. A cada dia nasço pra esquecer e morro na lembrança. De tudo que já tomei a única coisa que nunca engulo é a distância, quando o amargo esquenta o peito depois de uma dose forte, o corpo reage, renego a cruel dose e num ímpeto inato procuro você. v í c i o. 
Mamãe sempre alertava sobre os malefícios das drogas, só não podia adivinhar que a pior delas viria do coração. Se é vicio, se é costume, história de outra vida, karma, feitiço ou maldição, não sei. Eu preciso é de coragem pra entregar ao tempo essa história, preciso aprender dizer adeus, ser pontual, parar de nos enganar com reticências e "até logos" sempre fatais.

domingo, 21 de agosto de 2016

Pressa


Eu vou. Sigo num caminho tortuoso, embaraçado, sempre em busca de mim. Corro em direção ao meu próprio abraço, aprendi que não há melhor conforto do que estar em paz dentro da própria carcaça. Sou forte, sou clara, arranco na unha as angústias entranhadas, carrego na alma o pesar da transparência e expiro no trago a leveza da autenticidade. Me mostro nua, carne crua, retalhada, moldada a duros golpes. Vida é faca afiada: corta que fere, fere que sangra, sangra que para. Sou minha própria cicatriz. Fiz as pazes com minh'alma e alimento meus quereres, bicho faminto que sou, sedento de vida, ansioso pela morte. O fim é a certeza de que houve uma trajetória. Quero correr, me jogar, tomar tudo de uma vez, perder o fôlego, recomeçar. Sou mar bravio guiado pelo vento, o balanço das minhas ondas é demais pra tua embarcação. Não perdi a fé no amor, amo, ah como amo! Nunca parar de amar é o segredo. Amar cada pedaço do seu mundo particular, cada tropeço, cada amante. Amar com euforia a si mesmo, a sua essência. Meu coração é vagabundo, mas sabe bem o seu lugar, é aqui dentro do peito e não entregue em outras mãos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Deslizes


Querida, a vida vai andando e vamos continuar nos perdendo por aí. Os bares fecharão e nos manteremos ébrias nas mesas, eternizadas em cinzeiros e garrafas vazias. Meu bem, só nos resta aceitar que tudo é um ciclo, mas que sempre nos encontraremos. Seja como for, por qualquer esquina, a gente vai tá ali, como um oroboro: nos inícios e encerramentos, nos abrindo e fechando ora pro mundo ora pra nós mesmas, ora no quarto a sós ora nas despedidas aos berros. Amor, não há mais nada o que fazer. Todas as receitas que seguimos e criamos não resultaram em nada duradouro nem absoluto. Nossas mentes se esforçam, mas o coração persevera. A solução então é não ligar e continuar te ligando, não procurar e continuar te encontrando, não querer e sucumbir, te amar sem relutar. Posso usar mil paradoxos na tentativa de resumir que você é metonímia pra minha vida e ninguém entenderia. Paremos de brigar com o destino, com o karma ou sei lá com o quê que faz com que perduremos nesse amor angustiado. Desista também de se explicar aos amigos, eles podem até compreender, mas vão sempre nos perguntar o porquê dessa tortura tão displicente. Você é a minha personificação de amar, embora eu possa amar tantas outras. Dentre elas você é a que sempre vai, mas a única que fica. Vamos selar esse término com as línguas entrelaçadas, pois não há nada que desate esses nós entre teu peito e o meu. Baby, eu já aceitei que nossas partidas, por mais que sejam necessárias, são em vão. Amanhã a gente marca um almoço pra discutirmos mais uma vez como descumpriremos os termos acertados em nossa fugaz decisão.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Escolha


sinto que devo ir, que o meu mundo é imensidão
que tu é chave de cadeia, que com você meu terreno impermeia
mas é que quando te deixo assim de lado 
relembro os fatos e dá saudade do teu lado ficar
eu tenho que tomar um partido nessa minha vida, viver só de coração partido não dá
fiz um bolo pra você, vai partir ou vai ficar? 
te faço perguntas que só eu posso responder
preciso tomar um partido, viver só de coração partido não dá
já cursei tua faculdade, tô graduada na saudade
mas em branco deixei a subjetividade das questões 
a prova final é nosso ponto de interrogação
você aplica, eu passo, e pontuo com reticências pelo medo de te trocar
tenho que tomar um partido, viver só de coração partido não dá 
o tempo passa, eu rio. o tempo para e é só pranto
viro rio, perco o riso, você cobra uma decisão 
já nem sei por onde eu ando, onde eu posso me encontrar? 
se falo de amor é de você que eu lembro, você é todo meu tormento 
preciso tanto de um abrigo, um lugar longe pra sentir 
que sem você eu sou mais forte 
mas do teu lado tenho sorte e um colo pra deitar
tenho que tomar um partido nessa minha vida, viver só de coração partido não dá
fiz um bolo pra você, vai partir ou vai ficar?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

In(sã)na


  Meus sentimentos inatos, minha essência, o que sou, meu eu, só se desenvolvem a partir da minha vivência. O que digo que sou não passa de uma projeção de mim mesma, são os meus quereres refletidos num espelho que só eu enxergo. Se vivo negando o empirismo, como decifro-me? Se não tenho consciência de mim, como me atrevo a desbravar empiricamente o mundo? O inatismo, o nascer é porta pra vida e isso é fato. O lidar com o cotidiano, com as pessoas, com o meu sentir, é verdadeiramente fruto do quê? Em meio à contradições descubro vagarosamente o que me cerca, e ao passo que vivencio me sinto mais distante da verdade. A verdade é egoísta, corrói, ensina, crucifica. É tudo ponto de vista. Eu existo não por conta dos meus pais, não por conta das minhas crenças, mas pelo simples fato de existir. Existir não me garante o beneficio de pensar e muito menos de estar certa. A conivência e o comodismo nos fazem humanos. A convivência e as convicções adquiridas formam a nossa personalidade. O empirismo não é descoberta, é reconhecimento de vivência. Queria eu ter o poder da ignorância pra me sentir perfeita, como só a natureza pode ser. Mas errônea e consequentemente humana, caio, duvido, levanto e me estrepo de novo. E de novo. A sensatez é um erro, a plenitude é uma hipocrisia e o ser humano é a representatividade física da impotência e do egoísmo.
  Quanto mais tento me aproximar do ideal da natureza, mais me distancio dela.  Pois enquanto valorizadora da natureza deveria aceitar a indiferença e a fluidez da vida, sendo ela gentil ou não. A realidade é ópio para loucos, é tormento pra quem sente, é incompreensão pra quem é a flor da pele. Existir e ser são opostos dentro da mesma proposta: se fazer presente.  A gramática define os passos que demos, que damos, e os que pensamos em dar: o pretérito, o presente, o futuro. E eu tô nesse moinho, presa num limbo-interno-anacrônico, nessa confusão de ideias, na vontade de me fazer presente pra alcançar um futuro, no desejo de me eternizar. Quanto mais eu vivo mais vida encontro. "Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece". Elas se assustam. Larguei
o terço, larguei as quartas e segundo alguns por aí sou de quinta. O julgamento de
Kant me pertence? Só deus sabe! Enquanto isso divago sobre coisas que não sei, passeio por
um mundo que não conheço e procuro amar tudo que meus olhos alcançam.