segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tudo pro alto me convém (2009)


Eu tô jogando tudo pro alto. Mais uma vez. E eu espero que dessa vez, só dessa, você não chegue de mansinho como brisa de verão e tente trazer de volta tudo o que eu decidi não querer mais. Não quero mais rir das suas piadas toscas nem ter vontade de tirar um sorriso do seu rosto quando você não tá bem, não quero mais as conversas longas e nem me encantar com a sua mania de repentinamente falar que gosta de mim. Eu não quero mais querer você. 
Quero ficar intolerante a qualquer tipo de sentimento que me faça ficar ridícula, eu quero anestesia pra todos esses truques ilusionistas que você sabe fazer como ninguém, mas ao mesmo tempo eu sinto vontade de saber se isso é, de fato, ilusionismo. Por que todos esses artifícios que você usa pra me ludibriar podem ser apenas conseqüências de algo verdadeiro, não? NÃO. Estúpida mesmo. 
Por isso eu to jogando tudo pro alto, esperando que dessa vez você não estrague os meus planos de solidão e onipotência com a sua capacidade de unir todas as coisas em mim em uma festa regada a entorpecentes que me trazem as melhores sensações. Eu quero espalhar por todos os ares o bem e o mal que fizemos um ao outro, eu quero que os ventos levem a nossa história pra longe de toda essa minha vontade de querer colocar no nosso conto um marcante ponto final. 



P.S: Esse texto é de 2009 e achei perdido aqui nas minhas lembranças. É incrível como mudamos mas continuamos iguais.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O amor tem quatro cantos


Com você me sinto em casa
Morada de minh'alma, faça de mim o teu lar, que meu canto favorito é ao lado teu
Nosso grito uníssono ecoa em nosso quarto
Encanto.
Nosso lar.
O amor que em mim habita vez ou outra se esconde nas paredes do cotidiano
Mas não pense que esqueci onde, em dias tristes, posso repousar
Teu ombro, nossa cama
Nossa casa, teu coração.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Notas mentais


O único poema que descreve o fim é o silêncio.
Acabou.
A ca bou.
Fim.


Lembre que mover-se sempre no mesmo lugar também é inércia.


Tem hora que o que é sentido não faz sentido
Mas se há sentimento há razão de ser.


De tanto amor morreu sozinha
De tanto amor morreu com o mundo dentro de si
De tanto amor morreu.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Trilhas sonoras, labirintos vivos


Tava tocando Rita Lee. Alguma música que não identifiquei. Tirei. Coloquei um Vanguart e de repente o Hélio começou a cantar sobre o que a gente podia ser. Mas na minha cabeça não tinha "a gente", tinha "eu". O que eu tenho que ser, o que os outros esperam de mim. A verdade é que agora não tô esperando nada e continuo na espera. Outro dia me deparei com um questionário, numa entrevista de emprego, onde uma das perguntas era "quais são os seus planos a curto prazo?", e eu só pensei em responder "continuar sobrevivendo". Ai inventei umas mentiras e cruzei os dedos pra não me perguntarem sobre a resposta na fase seguinte da seleção. Não perguntaram. Ninguém pergunta.
As pessoas simplesmente esperam algo, justamente como eu. E esse texto, ao que parece, é sobre espera, mas na verdade era pra ser sobre como tudo tem me irritado, sobre como eu tô cagando pra vidinha filha da puta de vocês, sobre como eu quero que vocês se fodam. Sério. Daí esperei demais pra abrir a merda do computador e as palavras que eu ensaiei mentalmente sumiram. Todo ensaio é nada quando o espetáculo não estréia. Todo sussurro ao pé do ouvido é nada quando não faz a nuca arrepiar. Tudo é nada quando se tem tudo e não se faz nada. E nada é nada o todo o tempo. Não sei se tenho tudo ou se tenho nada, de qualquer forma é perca de tempo. Me perco.
Cada esquina dessa caminhada sem rumo parece dar em labirintos diversos. Tento escolher o que me parece mais fácil de sair. Não existe mais fácil. Fácil mesmo é virar umas doses e esquecer toda essa mediocridade, cantar mais alto que a música, acender um cigarro e acordar de manhã com poucas lembranças e muita ressaca. Acho que tô de ressaca dessa merda toda. Tudo tem cheiro dos labirintos que em que me meto, onde as trilhas são sinuosas e insinuantes. Elas vêm charmosas, cheias de suingue, más intenções. E eu caio, mergulho, brindo com elas, deleito-me por entre elas, piso em todas, beijo, abraço, me agarro. Quando dou por mim, estão me sugando, me conduzindo numa dança que não pedi, dois pra lá, deus pra cá. Me perco de novo. Aliás, não é que eu sempre me perca, é que nunca me encontro. Acredito nesse lance da vida ser uma eterna busca - pura sagatiba, como diria Seu Jorge - só que nesses momentos de desespero, filosofias baratas e histeria, nos apegamos a todo esse blá blá blá de encontro e espera. Precisamos disso pra continuar, pra colocar a culpa em algo. Só que a vida não marca compromisso com ninguém, apenas exige que nunca estejamos ocupados pra ela.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Transito embriagada cuspindo versos

Os velhos olhos vermelhos voltaram de ressaca. Capitu sem tranças e várias transas. De segunda à sexta, a vida - ávida - era uma ciranda sem fim, sem nexo. Expectativa. Espectador? Protagonista! Vida louca, vida breve, não me leve! Bem leve, mas releve.
Se existe sentido em existir, ele é o desejo de querer ser algo a mais sem pagar demais. Sem morrer devendo à vida o viver tão desejado por ter sucumbido ás tentações das ostentações. Ser simplesmente essência.
Todos os carros, aviões e bicicletas que por mim passam, levam e trazem lembranças. É tudo simplesmente amor. Só o amor constrói, fortalece e enaltece  o passado imperfeito, o futuro do presente e o presente (pretendente) do indicativo.



domingo, 16 de março de 2014

Keep Calm and?

Calma. Deixa o sangue esfriar. Coagular. Secar. Formar ferida. Calma. Não tira a casca. Controle os dedos. Corte as unhas. Use luvas. Não se machuque assim tão fácil. Calma. Não xingue, não se exceda, não beba demais, não fume demais, não chore demais, não corra, converse sempre, seja menos egoísta, fica aqui. Não sei porque você não vai. Vá, mas não fuja. Fica, mas não se mova. Vai ali praquele canto, calada, apenas sorrindo. Não deixe de sorrir nem pra engolir e não deixe de engolir sempre. Calma. Não grite, seja amável, me ame. Não suje, lave a casa e deixe a alma afogar. Esqueça e deixe sempre eu me lembrar de todas as lágrimas, brigas, cortes e costuras que você me fez. Não se faça de louca nem atrapalhe meus devaneios. m a n t e n h a a c a l m a. De tanta calma a alma se esvai. De tanta paciência a fúria tomou as rédias. De tanta inércia a língua dança e lança todo o veneno outrora engolido. Mas não digerido. Dez mandamentos. Sete pecados. Vá a merda! Quem não sabe bater só serve pra vítima. E que a vítima tenha calma, não eu. De tanta calma o relógio parou, desandei, desandou. Inércia amarga afeta o amor. Será que é fatal? Coração lascivo, conviver passivo. Com viver. Conviver. Há um charme derrotista em andar sempre de metrô: dar mil voltas no mesmo buraco. Há um charme pessimista em perder um amor: lavar a alma com a própria tristeza, banhar-se em lágrimas do que há tempos era certeza. Era uma vez. Mas calma. Escuta o fim da história. Termina com "viveram para sempre". Nem sempre felizes, nem sempre aos beijos, nem sempre no trabalho, nem sempre bêbados. Apenas para sempre. Apenas eterno dentro do sangue que esfriou, coagulou, secou, formou ferida. Dentro de nós.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Antes de carnavalizar, eu quero ver o que vai dar


Como o lobo e a chapeuzinho, vivemos dois extremos. É como se as sinapses não interpretassem as batidas do peito. Eu muito jovem, tenho a impressão de que as artérias estivessem todas entupidas. Não sinto. O sangue passa, transpassa, transborda e nada. Batidas que funcionam só em fevereiro. Carnaval parece dinheiro, no compasso do meu samba enredo, morre antes de ter um fim. Nota zero em harmonia. Minha porta-bandeira já não dança enquanto o crioulo faz festa com a música uníssona do silêncio. Chora bailarina. Teu samba já não basta, teu suingue já não dá conta da malemolência do mundo. Descansa, passista. O pandeiro toca? Quem dedilha o cavaquinho? Há muito não ouço tua música, há muito ninguém ouve. De peito entreaberto ouço os sons da rua, a festa dos trios, não visto os abadás. Carnaval em fevereiro e eu em pleno outubro. Outubro, primavera, chuva antes da hora em Brasília. Seca no meu coração. Antídotos, antíteses e paradoxos. Ainda é outubro. Por onde andam os outros nove meses. Nove meses é uma vida. O que gerei? Meu filho é a solidão no meio de um milhão de pessoas, meu filho anda sujo e dependente de cinco minutos de paz proporcionados pela embriaguez. Meu filho anda por aí de mãos unidas pedindo um pouco de misericórdia. Mas no carnaval as pessoas só querem se divertir. Na tevê ou na pipoca todos querem bater palmas no ritmo. Que ritmo? Já não danço nem canto. Garçom, traz aquela música? Ou a que me aquiete ou a que me desperte. Apenas música. Dê-me um cigarro, diz a gramática. Me dá um cigarro, eu digo a você. Quanto aos outros, não sei o que dizem. Meu mundo se resume à primeira pessoa do singular. Pedem-me gramática, ofereço poesia. Criação é balela em vista da cópia. Deixemos de ser cópia! Peço: SINTAM. Não como eu, mas como as voltas do mundo em torno do sol e ao redor dele. Se translação e rotação regem o universo, transladem e rotacionem, não estacionem. Entre, mas não sente. Lave a louça, faça o jantar. Não demorem pra lavar as roupas, elas mofam. A sujeira toma conta de tudo, inclusive da alma. Lave as roupas, lave a alma. Fevereiro é o mês de vestir o que outubro lavou. Não demore três meses pra vestir roupas limpas como eu. O ano começa em janeiro. Em fevereiro desfrutemos! Não deixe a angústia pra outubro, não canonize fevereiro. Não siga meu exemplo, curta o carnaval sem ansiar por ele, deixe que ele venha como a consequência de existir: viver. Não feche as janelas do terceiro andar, porque mesmo mudando do sexto, respirar por aparelhos nunca é saudável. Mude de edifício, de quadra e de setor. Mude a vida enquanto ainda ousamos viver.