sexta-feira, 25 de abril de 2014

Transito embriagada cuspindo versos

Os velhos olhos vermelhos voltaram de ressaca. Capitu sem tranças e várias transas. De segunda à sexta, a vida - ávida - era uma ciranda sem fim, sem nexo. Expectativa. Espectador? Protagonista! Vida louca, vida breve, não me leve! Bem leve, mas releve.
Se existe sentido em existir, ele é o desejo de querer ser algo a mais sem pagar demais. Sem morrer devendo à vida o viver tão desejado por ter sucumbido ás tentações das ostentações. Ser simplesmente essência.
Todos os carros, aviões e bicicletas que por mim passam, levam e trazem lembranças. É tudo simplesmente amor. Só o amor constrói, fortalece e enaltece  o passado imperfeito, o futuro do presente e o presente (pretendente) do indicativo.



domingo, 16 de março de 2014

Keep Calm and?

Calma. Deixa o sangue esfriar. Coagular. Secar. Formar ferida. Calma. Não tira a casca. Controle os dedos. Corte as unhas. Use luvas. Não se machuque assim tão fácil. Calma. Não xingue, não se exceda, não beba demais, não fume demais, não chore demais, não corra, converse sempre, seja menos egoísta, fica aqui. Não sei porque você não vai. Vá, mas não fuja. Fica, mas não se mova. Vai ali praquele canto, calada, apenas sorrindo. Não deixe de sorrir nem pra engolir e não deixe de engolir sempre. Calma. Não grite, seja amável, me ame. Não suje, lave a casa e deixe a alma afogar. Esqueça e deixe sempre eu me lembrar de todas as lágrimas, brigas, cortes e costuras que você me fez. Não se faça de louca nem atrapalhe meus devaneios. m a n t e n h a a c a l m a. De tanta calma a alma se esvai. De tanta paciência a fúria tomou as rédias. De tanta inércia a língua dança e lança todo o veneno outrora engolido. Mas não digerido. Dez mandamentos. Sete pecados. Vá a merda! Quem não sabe bater só serve pra vítima. E que a vítima tenha calma, não eu. De tanta calma o relógio parou, desandei, desandou. Inércia amarga afeta o amor. Será que é fatal? Coração lascivo, conviver passivo. Com viver. Conviver. Há um charme derrotista em andar sempre de metrô: dar mil voltas no mesmo buraco. Há um charme pessimista em perder um amor: lavar a alma com a própria tristeza, banhar-se em lágrimas do que há tempos era certeza. Era uma vez. Mas calma. Escuta o fim da história. Termina com "viveram para sempre". Nem sempre felizes, nem sempre aos beijos, nem sempre no trabalho, nem sempre bêbados. Apenas para sempre. Apenas eterno dentro do sangue que esfriou, coagulou, secou, formou ferida. Dentro de nós.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Antes de carnavalizar, eu quero ver o que vai dar


Como o lobo e a chapeuzinho, vivemos dois extremos. É como se as sinapses não interpretassem as batidas do peito. Eu muito jovem, tenho a impressão de que as artérias estivessem todas entupidas. Não sinto. O sangue passa, transpassa, transborda e nada. Batidas que funcionam só em fevereiro. Carnaval parece dinheiro, no compasso do meu samba enredo, morre antes de ter um fim. Nota zero em harmonia. Minha porta-bandeira já não dança enquanto o crioulo faz festa com a música uníssona do silêncio. Chora bailarina. Teu samba já não basta, teu suingue já não dá conta da malemolência do mundo. Descansa, passista. O pandeiro toca? Quem dedilha o cavaquinho? Há muito não ouço tua música, há muito ninguém ouve. De peito entreaberto ouço os sons da rua, a festa dos trios, não visto os abadás. Carnaval em fevereiro e eu em pleno outubro. Outubro, primavera, chuva antes da hora em Brasília. Seca no meu coração. Antídotos, antíteses e paradoxos. Ainda é outubro. Por onde andam os outros nove meses. Nove meses é uma vida. O que gerei? Meu filho é a solidão no meio de um milhão de pessoas, meu filho anda sujo e dependente de cinco minutos de paz proporcionados pela embriaguez. Meu filho anda por aí de mãos unidas pedindo um pouco de misericórdia. Mas no carnaval as pessoas só querem se divertir. Na tevê ou na pipoca todos querem bater palmas no ritmo. Que ritmo? Já não danço nem canto. Garçom, traz aquela música? Ou a que me aquiete ou a que me desperte. Apenas música. Dê-me um cigarro, diz a gramática. Me dá um cigarro, eu digo a você. Quanto aos outros, não sei o que dizem. Meu mundo se resume à primeira pessoa do singular. Pedem-me gramática, ofereço poesia. Criação é balela em vista da cópia. Deixemos de ser cópia! Peço: SINTAM. Não como eu, mas como as voltas do mundo em torno do sol e ao redor dele. Se translação e rotação regem o universo, transladem e rotacionem, não estacionem. Entre, mas não sente. Lave a louça, faça o jantar. Não demorem pra lavar as roupas, elas mofam. A sujeira toma conta de tudo, inclusive da alma. Lave as roupas, lave a alma. Fevereiro é o mês de vestir o que outubro lavou. Não demore três meses pra vestir roupas limpas como eu. O ano começa em janeiro. Em fevereiro desfrutemos! Não deixe a angústia pra outubro, não canonize fevereiro. Não siga meu exemplo, curta o carnaval sem ansiar por ele, deixe que ele venha como a consequência de existir: viver. Não feche as janelas do terceiro andar, porque mesmo mudando do sexto, respirar por aparelhos nunca é saudável. Mude de edifício, de quadra e de setor. Mude a vida enquanto ainda ousamos viver.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Enquanto falam de Vygotsky...


Escrevo cartas que não serão enviadas nem ao menos relidas. Sentimentos postos apenas na lembrança, trancados onde o coração não possa alcançar. Sensações vindas do âmago, bem dobradas e seladas para nunca serem redescobertas. Por quanto tempo ainda me esconderei atrás de mim mesma? Quando me permitirei  demonstrar a intensidade e as angústias daqui de dentro? Será que vivo de fato? Ou simplesmente me agarro ao mínimo do meu potencial humano?
Por enquanto vou vendo os dias passarem sem reparar quando o sol se põe, trancada na torre mais alta pra me encaixar na rotina do mundo, engasgada com meus próprios verbos numa gagueira interminável de vida. Cuspo ou engulo? A grande pergunta da hora H.
Não posso perder tempo nem deixar com que ele me perca. Não posso deixar que o fruto apodreça ainda verde na minha mão, como fez Eduardo. Mas também não posso colher o fruto já maduro demais.  Os melhores poetas morreram antes dos vinte chorando as dores prematuras da carne e da alma. E o meus vinte anos de boy: that's over, baby. O que fazer depois daqui sem dar voltas ao redor do passado ou guardar caixão pro futuro?
Só batam à minha porta com respostas pra tudo ou com a pergunta crucial na ponta da língua - ferina-. Não desperdice meu tempo com ladainha enfadonha! Passemos as horas discutindo a existência e existindo um no outro. Me explore, sinta o corpo que carrega essa pobre alma, entre. Tome minhas mãos geladas e me leve pra dançar, faça meu relógio parar de bater, me jogue na cama pra passearmos por toda ela. Faça o tempo esvair-se pelas minhas pernas. Saboreie minhas verdades e decida: cospe ou engole?

terça-feira, 16 de abril de 2013

Por isso corro demais


A vida tá correndo tanto quanto as pessoas. Não vejo mais ninguém nem aqui nem ali. Corri de todos, passei por tantas esquinas e me acomodei no sossego da indiferença. E pra quem acha que não, há sim indolência após o porre. Os porres. Que seja! Ninguém é insubstituível e eu tô correndo tanto que não tenho tempo pra repôr as costas que se viraram e deram o fora. A vantagem é que eu nunca mais chorei pra precisar delas aqui. Meu caminho não está vazio mas também não tá lotado me fazendo tropeçar a cada passo. Tô suave, displicentemente ocupada de novas pessoas e passando leve por cada esquina a caminho da faculdade. Sem medo, amarras e justificativas; trabalhando a minha essência, desfrutando da minha bondade e da bondade do mundo, refletindo o meu amor no teu rosto a cada manhã agitada: é assim que corro todos os dias pro trabalho e conto as horas pra sair do metrô vazio e cair nos teus braços nem que seja durante os cinco minutos que me mantenho acordada antes que tudo comece de novo. A cada chegada no nosso cantinho percebo quão valiosas foram as inúmeras partidas.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Mamãe já dizia que ela era uma santa

A questão é que ela era boa demais. Boa demais pra ser vista com aquele menino, forte demais pra cair de bêbada, cool demais pra ser amiga da fulana. Queria ser boa moça, transparecer bondade, amizade e certa leviandade, mas sem perder a pose, claro. Era tão convincente que convenceu a si mesma que era movida a bondade e solidariedade, que nunca saía da sobriedade e que era benquista por toda a cidade. Achava que ninguém reparava na sujeira por debaixo do tapete e as garrafas no canto da cozinha que não escondera devidamente por falta de familiaridade com afazeres domésticos e higiene de alma. O problema é que mesmo com a sujeira incômoda, não contavam por medo ou compaixão que a perfeição não habitava na sua morada e que seu coração era ácido e sua língua ferina. Empunha diante de si orgulho, preconceito, muito amor resignado e pouca habilidade de doação. É bem verdade também que não era de todo ruim, longe disso. Tinha muito apreço pelos outros dependendo das estações do ano e da balada da moda. Carregava consigo muita sede de qualquer coisa que a fizesse nunca lembrar quão vazios eram seus dias e sua noites cheias de amigos de meias horas e de flashes pras poses nos retratos. Não descartava qualquer possibilidade de amor platônico. Se alimentava disso e mesmo insatisfeita era incapaz de deixar de lado aquela bobeira infantil e ter hombridade pra encarar algo palpável. Covardia define. Covardia com os que se importavam - como já foi dito também tinha suas inúmeras qualidades -e consigo, porque no meio da poeira estavam jogadas ali no canto, quase dentro da caixa, a doçura, a ternura e a coragem. Coragem de encarar o espelho de frente e enxergar pela primeira vez a franqueza do ser nos seus olhos castanhos e amendoados e depois espatifar com vontade o reflexo de todo o resto, como se agora os pulmões pudessem respirar livremente, mesmo com o cigarro aceso, e o grito da vida subisse pela garganta desapertando o peito. Porque isso sem dúvida é caso de aperto no peito e sufocamento. Perfeição também sufoca mente trai e parte corações. O lado bom da vida é poder gritar mesmo ressabiado e compreender que o erro é o melhor passaporte pras escolhas corretas. O erro é a vida ensinando a tapas o que os olhos ignoraram. Permita, deus, que ela assuma seus erros, que viva com eles. Ou que enxergue melhor.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Fui e indo estou pr'onde serei


  Aos dez eu planejava passar no vestibular com dezesseis, virar jornalista e sair de casa. Aos dezesseis eu não passei no vestibular, fui pra um cursinho onde fingia que estudava e nunca ia numa aula sábado pra ir prum canto qualquer com as amigas. Não planejava nada. Daí pros dezenove arrumei meu primeiro emprego, bebi  e chorei muito achando que amava, bebi muito e encontrei o amor em quem eu menos esperava, passei no curso que eu eu tava afim - letras - na federal. Me bastava. Aos poucos o mundo que me abraçava fez-se pequeno e banal. Aos vinte já não tenho paciência pra fofoca, vida alheia, opiniões que não me acrescentam, pessoas que não me completam. Não tenho tempo nem vontade de saber quem você pegou naquela festa e o que você tinha tomado pra agir de tal modo. E mesmo quando as notícias correm por aí entre as bocas de quem eu ainda não descartei da minha vida, não julgo. Fiquei sem saco pra julgamento. Fiquei sem saco pra picuinha. As minhas paranoias, ressentimentos, inseguranças e poucas conquistas tomam conta de todo ar que eu respiro. Se a você só interessa aqueles papinhos batidos de pessoas muito populares que estão em todos os lugares, por todas as redes sociais: por favor, não me procure. Não teremos assunto, não mais. Alguns me julgarão hipócrita pelas linhas acima, dizendo que eu já fui uma dessas pessoas oniscientes-onipresentes apontando o dedo tirano na cara de quem não vivia como eu. E estarão completamente certos: JÁ FUI. Como qualquer ser humano, fui criança, adolescente e tô caminhando pra ser mulher mesmo que meus passos sejam tortos e por diversas vezes se desviem num erro grotesco. E vou continuar desviando a rota. SEMPRE. Fui predestinada  a correr atrás da felicidade acima de tudo, mas não acima de todos, por mais que eu esteja por cima de você que deixa tudo mais leve e me tira o peso de ser metódica e radical demais.
  Como toda mudança, essa me trouxe dores. Principalmente a dor de perceber que essa gente se mascara não somente para blindar o coração, mas pra atingir o outro na tentativa de se sobressair e que outros simplesmente desaparecem apesar de há muito terem prometido um colo. Cansei de fazer de conta que não me dói oferecer um abraço e ter apenas o álcool e a reclusão pra me acalantar. Cansei de fingir que sou inatingível e desenhei com as lágrimas meu atestado de fragilidade. Não sou frouxa nem rocha, sou gente. Eu grito, choro, preciso de uma mão, de carícias e do meu amor. Preciso de cerveja, bater um papo no bar, rir e fazer rir. Preciso de leveza, firmeza e compreensão. Preciso me doar pra não sufocar e o que me salva de não enlouquecer agora, aos vinte, são teus beijos e a escrita. Porque no resto, meus caros, não há cumplicidade, reciprocidade e muito menos segurança. Abri as portas do meu mundo, cruzei a linha tênue que dividia minha mesquinhez de espírito, o medo e os escudos da minha sede de devorar cada pedaço de vida empunhando minha espada que corta as amarras que impedem que eu seja de verdade. O passado não mente sobre mim, mas o presente é que revela quem sou. EU FUI. Fui muita coisa aos dez, aos dezesseis e aos dezenove. Sou aos vinte e daqui pra frente tudo mira no que eu quero ser. Responsável por mim, pelos meus atos e pelas suas alegrias. Dona do seu abraço, dos meus passos e da minha vida.