quarta-feira, 30 de agosto de 2017

a seco

eu quero que você me coma de dentro pra fora, 
pelas beiradas
que teus dedos passem por entre minhas pernas 
mas só quando já tiverem tocado mansinho minha cara amassada acordando meio dia no domingo, preguiçosa
que meu corpo seja doce na tua boca
mas só depois da minha loucura ter salgado teu peito
como um descanso pro paladar
sobremesa, sobre-cama
eu te vi voltar da praia sob a quentura de agosto
se banhando no leito manso e cristalino dum rio
descansando depois de ter brincado na areia fina,
temperada pelas águas de Inaê
correndo descalço, criando casco na sola do pé
era eu Oxum (Ora iê iê ô!)
era eu Iemanjá (Odoiá!)
em plena seca de Brasília
transbordando com o mergulho do teu corpo dentro de mim

DEVANEIOS DE SEGUNDA (feira, categoria e intenção


primeiramente
a segunda também
e de repente ja é terça
não creio em terços nem metades
sou inteira e com vontade
na quarta te conto um segredo
deixa que morra na língua pelo menos até quinta
eu sei que você mente e não segura
pra todo mal há uma cura, é o que dizem
menos pra morte, eles falam
a repugnam por ser fatal, fazem até o sinal da cruz
ta re-pre-en-di-do emnomedejesus me ensinaram a rezar
"a cruz é com a mão direita, menina!"
assim me criticaram emnomedejesus
falei sobre encruzilhada e me ralharam
deustelivredetodomalamém
entoei mentalmente meu saravá
voltemos aos fatos
é que a sexta passa voando e carrega nos braços o sábado
boemia, copo vazio, cinzeiro cheio, corpo cansado
vira um copo a cada pedaço de alma que escorre pelo rosto
ou ao contrário
transbordando, transcendendo
aperreada com tanto gerúndio no caminho
tá tudo indo, eu to tentando, vamo fazendo
domingo a gente recupera
até o relógio trabalha deitado
e o tempo corre preguiçosamente a cada virada na cama
as costas doem de tanto ócio
a cabeça pesa com o coração apertado
(até tentei diluir no álcool, mas a química não aconteceu)
apreensivos aguardamos o desespero
a morte da juventude sabática
o recomeço
ja é meia noite
primeiramente, a segunda também

domingo, 30 de abril de 2017

Rezo terças

A noite é mãe de uma criança que berra. Batizei-a de angústia. Não sei se a mãe ou a cria. Enquanto os carros cruzam a avenida penso se peço ou não outra cerveja. Opto por pedir: a cerveja e uma caneta. Um moribundo pede um cigarro com a cortesia de quem aborda uma mulher sozinha. Não nego. Tragar é desatar um nó da alma, imagino o emaranhado que ele deve ter por dentro. Essas são as primeiras linhas desenhadas à punho desde que a praticidade da tecnologia se apossou do meu pouco tempo. Os homens conversam e me observam como se vissem um bicho selvagem por entre os prédios. Dentro do peito arde não sei o quê, pode ser a segunda Heineken ou a euforia em segurar uma esferográfica azul depois de meses. Sinto que domino a atmosfera tragando num ritmo atípico o marlboro vermelho designado aos dias mais complicados. A noite esfria à medida que afio a escrita e esvazio o copo. A vida é mesmo feita de antíteses, eureca! De dentro do bar o homem de verde discute ao telefone com alguém - provavelmente a esposa ou a amante, vai saber - que cobra sua presença. E eu, sozinha, constato por experiência própria, que amar alguém só é possível se pudermos estar sós vez em quando. Hoje não estou rouca nem me esforço pra entender conversas alheias, tudo chega naturalmente aos meus sentidos. A melhor percepção do mundo vem quando sou minha própria companhia​. Escrevo no verso de um livro criando pretensiosamente um adendo à obra. Tudo se mistura: eu e o poema, as luzes dos postes e das estrelas, a cria e o criador. Duvido que Deus tenha desenhado a humanidade sob papel branco com caneta nova porque a maior inspiração vem do despreparo, numa epifania. O homem nasceu duma ressaca d'Ele depois de inventar outras cousas, é a displicência do juízo divino depois que iluminou o céu. Talvez Deus estivesse realmente meio bêbado e talvez eu também esteja. Largada na mesa pelo estresse do expediente me despejo em devaneios ao passo que o garçom recolhe com igual cansaço as cadeiras pra dentro do bar. E ainda é terça feira.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Teto lunar

Não olhei pra lua no dia que todos a admiravam
Talvez seja essa a metáfora de minha existência
Teimosia vez ou outra faz cair de precipício e morro
a cada lua - cheia - até de mim

Deito-me, sem fitá-la, sob sua luz de misericórdia
Sobrecarregada de desapontamento
Esperando por um amor de cheiro doce e beijo quente
Tal qual essa noite que invade meus pulmões

Respiro e exalo o passado maculando a atmosfera
Os nós dos dedos dormentes, entrelaçados,
ensaiam a prece recorrente à confissão dos olhos
Ainda por encararem o circular clarão

Enquanto sorrisos abrem-se pro céu
Cativo inerte medos e memórias
As palavras já ditas assumem tons de arrependimento
A saudade aflita dos arrepios em nucas alheias
Provocados pelo querer

Pêlos excitados com vida nova e calor
O suor de desespero umedecendo os corpos nus
Este sumo salgado escandalizando o próximo ato, pra alguns
E remoendo na garganta de outros, o ressentimento

Cada qual na sua pele, compondo a naturalidade do universo
Brilhos singulares, displicentes, pelo mundo
Amontoados viram força de luz - incandescente
Somos constelação

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Caótica

O caos me faz produzir ao passo que aos poucos morro por dentro a cada linha. E amo essa sensação de sofrer a cada palavra floreada, a cada combinação semântica, a cada sujeito oculto representando uma alegria ou uma decepção. É no caos que me encontro depois de uma longa procura, é nele que despejo a angústia num copo pra beber mais tarde no mesmo bar. É ali que vou ao chão enfraquecida pela embriaguez e também onde me reergo endurecida pelos socos diários. É na bagunça da cabeça, no meu conflito, na minha zona de guerra onde organizo as paranoias por prioridade e decido qual servirá de travesseiro noite após noite. O caos é amor, ora o próprio ora o que espalho, sendo este, na maioria das vezes, recolhido já destroçado, pronto pra virar mais um mosaico preso à parede do meu quarto, mais um quadro cubista, retrato do niilismo do meu coração.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Amor e outras drogas


Tenho dormido profundamente, bebido além da conta, fumado um cigarro atras do outro, sentido muita angústia, entregue demais a saudade no quarto escuro sozinha pensando no desamor que desencadeou os exageros. Nunca sou oito, sempre oitenta, duzentos e vinte volts, vinte quatro anos, seis ao lado seu, esse amor filho pródigo, primogênito, nosso desequilíbrio e refúgio, nossa eterna contradição. 
A noite mastiga meu peito e me engole, me cospe indefesa refém desse afeto que, de fato, não passa. A cada dia nasço pra esquecer e morro na lembrança. De tudo que já tomei a única coisa que nunca engulo é a distância, quando o amargo esquenta o peito depois de uma dose forte, o corpo reage, renego a cruel dose e num ímpeto inato procuro você. v í c i o. 
Mamãe sempre alertava sobre os malefícios das drogas, só não podia adivinhar que a pior delas viria do coração. Se é vicio, se é costume, história de outra vida, karma, feitiço ou maldição, não sei. Eu preciso é de coragem pra entregar ao tempo essa história, preciso aprender dizer adeus, ser pontual, parar de nos enganar com reticências e "até logos" sempre fatais.

domingo, 21 de agosto de 2016

Pressa


Eu vou. Sigo num caminho tortuoso, embaraçado, sempre em busca de mim. Corro em direção ao meu próprio abraço, aprendi que não há melhor conforto do que estar em paz dentro da própria carcaça. Sou forte, sou clara, arranco na unha as angústias entranhadas, carrego na alma o pesar da transparência e expiro no trago a leveza da autenticidade. Me mostro nua, carne crua, retalhada, moldada a duros golpes. Vida é faca afiada: corta que fere, fere que sangra, sangra que para. Sou minha própria cicatriz. Fiz as pazes com minh'alma e alimento meus quereres, bicho faminto que sou, sedento de vida, ansioso pela morte. O fim é a certeza de que houve uma trajetória. Quero correr, me jogar, tomar tudo de uma vez, perder o fôlego, recomeçar. Sou mar bravio guiado pelo vento, o balanço das minhas ondas é demais pra tua embarcação. Não perdi a fé no amor, amo, ah como amo! Nunca parar de amar é o segredo. Amar cada pedaço do seu mundo particular, cada tropeço, cada amante. Amar com euforia a si mesmo, a sua essência. Meu coração é vagabundo, mas sabe bem o seu lugar, é aqui dentro do peito e não entregue em outras mãos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Deslizes


Querida, a vida vai andando e vamos continuar nos perdendo por aí. Os bares fecharão e nos manteremos ébrias nas mesas, eternizadas em cinzeiros e garrafas vazias. Meu bem, só nos resta aceitar que tudo é um ciclo, mas que sempre nos encontraremos. Seja como for, por qualquer esquina, a gente vai tá ali, como um oroboro: nos inícios e encerramentos, nos abrindo e fechando ora pro mundo ora pra nós mesmas, ora no quarto a sós ora nas despedidas aos berros. Amor, não há mais nada o que fazer. Todas as receitas que seguimos e criamos não resultaram em nada duradouro nem absoluto. Nossas mentes se esforçam, mas o coração persevera. A solução então é não ligar e continuar te ligando, não procurar e continuar te encontrando, não querer e sucumbir, te amar sem relutar. Posso usar mil paradoxos na tentativa de resumir que você é metonímia pra minha vida e ninguém entenderia. Paremos de brigar com o destino, com o karma ou sei lá com o quê que faz com que perduremos nesse amor angustiado. Desista também de se explicar aos amigos, eles podem até compreender, mas vão sempre nos perguntar o porquê dessa tortura tão displicente. Você é a minha personificação de amar, embora eu possa amar tantas outras. Dentre elas você é a que sempre vai, mas a única que fica. Vamos selar esse término com as línguas entrelaçadas, pois não há nada que desate esses nós entre teu peito e o meu. Baby, eu já aceitei que nossas partidas, por mais que sejam necessárias, são em vão. Amanhã a gente marca um almoço pra discutirmos mais uma vez como descumpriremos os termos acertados em nossa fugaz decisão.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Escolha


sinto que devo ir, que o meu mundo é imensidão
que tu é chave de cadeia, que com você meu terreno impermeia
mas é que quando te deixo assim de lado 
relembro os fatos e dá saudade do teu lado ficar
eu tenho que tomar um partido nessa minha vida, viver só de coração partido não dá
fiz um bolo pra você, vai partir ou vai ficar? 
te faço perguntas que só eu posso responder
preciso tomar um partido, viver só de coração partido não dá
já cursei tua faculdade, tô graduada na saudade
mas em branco deixei a subjetividade das questões 
a prova final é nosso ponto de interrogação
você aplica, eu passo, e pontuo com reticências pelo medo de te trocar
tenho que tomar um partido, viver só de coração partido não dá 
o tempo passa, eu rio. o tempo para e é só pranto
viro rio, perco o riso, você cobra uma decisão 
já nem sei por onde eu ando, onde eu posso me encontrar? 
se falo de amor é de você que eu lembro, você é todo meu tormento 
preciso tanto de um abrigo, um lugar longe pra sentir 
que sem você eu sou mais forte 
mas do teu lado tenho sorte e um colo pra deitar
tenho que tomar um partido nessa minha vida, viver só de coração partido não dá
fiz um bolo pra você, vai partir ou vai ficar?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

In(sã)na


  Meus sentimentos inatos, minha essência, o que sou, meu eu, só se desenvolvem a partir da minha vivência. O que digo que sou não passa de uma projeção de mim mesma, são os meus quereres refletidos num espelho que só eu enxergo. Se vivo negando o empirismo, como decifro-me? Se não tenho consciência de mim, como me atrevo a desbravar empiricamente o mundo? O inatismo, o nascer é porta pra vida e isso é fato. O lidar com o cotidiano, com as pessoas, com o meu sentir, é verdadeiramente fruto do quê? Em meio à contradições descubro vagarosamente o que me cerca, e ao passo que vivencio me sinto mais distante da verdade. A verdade é egoísta, corrói, ensina, crucifica. É tudo ponto de vista. Eu existo não por conta dos meus pais, não por conta das minhas crenças, mas pelo simples fato de existir. Existir não me garante o beneficio de pensar e muito menos de estar certa. A conivência e o comodismo nos fazem humanos. A convivência e as convicções adquiridas formam a nossa personalidade. O empirismo não é descoberta, é reconhecimento de vivência. Queria eu ter o poder da ignorância pra me sentir perfeita, como só a natureza pode ser. Mas errônea e consequentemente humana, caio, duvido, levanto e me estrepo de novo. E de novo. A sensatez é um erro, a plenitude é uma hipocrisia e o ser humano é a representatividade física da impotência e do egoísmo.
  Quanto mais tento me aproximar do ideal da natureza, mais me distancio dela.  Pois enquanto valorizadora da natureza deveria aceitar a indiferença e a fluidez da vida, sendo ela gentil ou não. A realidade é ópio para loucos, é tormento pra quem sente, é incompreensão pra quem é a flor da pele. Existir e ser são opostos dentro da mesma proposta: se fazer presente.  A gramática define os passos que demos, que damos, e os que pensamos em dar: o pretérito, o presente, o futuro. E eu tô nesse moinho, presa num limbo-interno-anacrônico, nessa confusão de ideias, na vontade de me fazer presente pra alcançar um futuro, no desejo de me eternizar. Quanto mais eu vivo mais vida encontro. "Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece". Elas se assustam. Larguei
o terço, larguei as quartas e segundo alguns por aí sou de quinta. O julgamento de
Kant me pertence? Só deus sabe! Enquanto isso divago sobre coisas que não sei, passeio por
um mundo que não conheço e procuro amar tudo que meus olhos alcançam.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

24/09


Hoje no trânsito, um calor dos infernos, passei por um daqueles relógios públicos numa rua qualquer e foi quando me toquei da data: 24/09. Há 9 anos não esqueço desta data. Há 9 anos ganhei um daqueles presentes sem porque da vida, uma amizade adolescente despretensiosa, a promessa de uma eternidade que passou com o tempo. Lembrei do convívio, da paixão inibida pelas brincadeiras de colegas de escola, do fone de ouvido compartilhando o som do Forfun no fundo da sala. Os fones que ligavam minha cabeça no teu ombro, as histórias, a ansiedade, o drama e a paixão da adolescência. Lembro como se fosse ontem. Quão bonitos fomos, que ligação sincera! E pensando nos anos que fomos melhores amigos querendo ser amantes, pensei em como a vida nos leva por caminhos inimagináveis. É tudo surpreendentemente louco, diferentemente das noites atuais em que o amanhecer parece o mesmo, presos nessa rotina desgastante dos 20 e poucos anos. Hoje, outro dia 24/09, não faço ideia de quem você seja. Será que ainda gosta de esmalte vermelho? Será que ouve "Costa verde" e lembra de mim também? Será que ainda abraça forte e apertado? Ainda é inseguro? Será que guarda no peito o carinho que me dedicava? Dentre todas as possibilidades, a única certeza que queria ter é de que você tá feliz. Os anos arranjam desencontros, as pernas perdem os passos, o corpo cria outro ritmo, a cabeça e o coração esquecem pequenas alegrias. Mas não esqueço de você. Ano passado encontrei teu número num celular antigo - pura sorte do destino - e nos falamos rapidamente em um outro 24, foi quando me disse que não esquece do meu 25 de maio e me chamou de neguinha como de costume. Meu coração transbordou amor e saudade. Nos guardamos nas mil lembranças e realidades, é um carinho e respeito admiráveis. Quando chega a primavera meu peito floresce, é uma árvore de sentimentalidades infantis. Sou levada pros meus 16 espontaneamente, a alma já espera por isso, precisa disso. Me lembro da menina nerd, cheia de sonhos, expectativas, com desejo de liberdade, com medo de sentir saudade, de largar a escola e ser engolida pelo mundo sem deixar rastros. Me lembro da minha força, da minha essência, da garra e da postura rebelde. Acendo um cigarro e concluo: minhas lembranças são minha fortaleza. Meus caminhos conduzem um encontro de uma pessoa só: eu comigo mesma. Egoísta que sou, tomei pra mim o teu dia, fiz dele um baú de relíquias de bons momentos e sensações maravilhosas, fiz dele um álbum de primeiras vezes, meus inícios que terminam a meia-noite do dia 25. Espero que um acaso da vida nos leve a um encontro de dois pra falarmos sobre o tempo em que ficamos perdidos pelos labirintos que traçamos. Um brinde às suas primaveras! Tim Tim.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Desistência


A gente tinha brigado, - a gente sempre brigou, por motivos idiotas ou sérios e até mesmo sem motivos - não nos falávamos há algum tempo e a saudade das nossas bobagens já arranhava no meu peito. Numa noite dessas, com vontade de ouvir sua voz, sonhei com a nossa viagem dos sonhos e foi lindo: o mar, a brisa que esvoaçava meu cabelo, o sol que intensificava o verde dos seus olhos, o amor que nos edificava e entoava as gargalhadas... Acordei. Como de costume na minha rotina sem horários, já era fim de tarde, tinha alguma música rolando no fundo da minha típica crise de ansiedade da tpm, pego o celular e tá lá seu nome na tela, notificado em uma ligação e uma mensagem. Tremi. Senti medo, aquela leve vertigem que ataca por 3 segundos quando o inesperado acontece, a arritmia que deixa as mãos trêmulas e os olhos vidrados na tela com os polegares dançando na frente dela enquanto a cabeça nem sabe o que pensar. Era você ali no celular, era você fora do sonho, era você querendo ajuda com uma formalidade do trabalho, era você impessoal, receosa de que minha raiva pelo último bate boca impedisse que eu me disponibilizasse. Por mais que o mundo gritasse "NÃO, que se vire!", a minha saudade foi impiedosa, tomou as rédias, e respondeu displicentemente "ok". Eu não sei bem quando, no meio da conversa, essa afirmativa me levou pra sua casa e me jogou no teu abraço. A vida só precisa de um "sim" pra acontecer. Por alguma razão meu corpo repele o não quando lembra de todo o riso e renuncia os vários prantos, a minha boca escancarada num prazer masoquista sibila mil "sins" quando o assunto é você, e então você acontece, sua buzina ecoa no portão e mais uma vez pego carona de volta pra tua cama. É como mágica, feitiçaria, é um encanto que materializa a alegria no meu mundo mesmo no meio da nossa confusão. Nós a sós somos nós, embaraço, mãos, pernas e peitos entrelaçados, somos abraço, retrocesso, atrasamos o futuro com os laços do passado, tendo o presente como intermediário de duas cabeças que não sabem lidar com seus corações. Somos desavença e perdão, pontapé e abraço, carinho e decepção. Nossa foto deveria estampar a palavra "controvérsia" no dicionário, bem como estar ao lado de "cumplicidade". Sempre fomos significado, nunca insignificantes. Muda o mês, vira o ano, vem verão, chega o frio, corto o cabelo, preencho vazios, mas teu canto tá sempre aqui, - ou teria você por todos os cantos? - os teus sins moram aqui dentro esperando a hora de escaparem num sôfrego ímpeto que a tua falta me causa. Já nem procuro racionalizar, entreguei pra deus esse amor que não pude segurar nas mãos. Não luto mais contra minha vontade de te ter por perto, por dentro e por cima, não tenho mais armas, nem orgulho nem raiva nem você. Eu te quero, mas não agora, não desse jeito, não com meu mundo estraçalhado, não com a vida me tomando por inteiro. Um dia, quem sabe, a gente se ajeita, recomeça nossa história, reinventa nosso lar, um dia, a gente, sei lá, a gente se RE. A gente se reencontra com a cabeça diferente e o coração no mesmo lugar.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Do sol ao inferno


Você mal sabe pequena, que falta me faz por entre as cobertas nesse frio de junho, a tua presença morena. E quando pela manhã me fazia um café adoçado com teus beijos e esquentava por dentro meu corpo inteiro... Era um convite pra amar. E eu amava. Perdida em teus braços perdia a hora por ter perdido a roupa. Sinto falta das nossas manhãs de inverno, aquelas de antes da nossa vida virar inferno e por si só acalentar o ódio em nossos pobres corações. Sinto falta do teu cheiro, do teu toque no meu cabelo, que tomava outros rumos e passeava por meu corpo entregue ali na tua cama, completamente ao teu dispor. E cá estamos, inverno outra vez, janelas trancadas, mil cobertores espalhados, mas não tenho teu corpo, saí da tua casa. Abri mão do nosso lar pra não acabar de vez com o meu carinho e nossas boas lembranças, pra descobrir sozinha o efeito das estações no meu coração, que por mais clichê que seja, tá congelado desde aquela primavera em que desistimos da nossa história e eu fui embora decidida a te esquecer.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Nu


  A nudez é o reflexo da verdade. Expor a carne, suas formas, seus defeitos e segredos? Nunca! Prendam-na! É atentado ao pudor! E eu pergunto: que pudor? As pessoas se escandalizam com um corpo nu que dirá com uma alma.
  Coloca um casaco, tá frio. Tira o sentimento, tá esquentando. Esses shorts não estão muito curtos? Essa desculpa não tá muito esfarrapada? Qual o tamanho da sua verdade? Até que ponto cê (en)cobre a alma?
  Com que roupa eu vou? Vestindo um sorriso, no decote levo malícia, na calcinha há maldade. Não, tá vulgar. O que vão pensar? Quanto mais carne mostro, menos alma hão de ver. Se minha nudez faz arder tua retina, espero que queime até enxergar.
  Se abro o peito sou ridícula, se abro as pernas uma puta. Bom mesmo é ser fingida, cobrir-me inteira assim bem pura, debruçada na janela com um olhar profundo e lânguido tal qual Julieta a esperar por seu Romeu.
  Todo diário tem uma chave, todo corpo guarda um espírito, cada espírito um segredo. Meu diário é escrito em libras, tenha tato para ler. Cada linha à sua maneira: não se afobe, molhe os dedos, sinta a textura do traço, o cheiro das páginas. Vire-as com a certeza de que não pulou nenhuma frase, vocifere minhas palavras, realize minhas vontades.
  Saboreie cada dia, fique atento a cada ato. O dia de hoje tá em branco: e aí, tu é um homem ou um rato? Escreve comigo ou cala meus lábios? Calma, pensa melhor, não precipite a resposta porque sou quase uma esfinge, te dou três chances. Fique logo sabendo que sou impiedosa, tô louca pra te ver errar três vezes só pra comer você de costas.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Forever alone


  Às vezes voltar à estaca zero é necessário pra continuar. O passado já não me interessa e meus olhos já não enxergam nada aquém. A cabeça já não permite o retrocesso e coração endureceu com a realidade. Somos o que podemos apesar de por vezes desejarmos o impossível. Sonhar não custa nada, mas estressa. A vida é uma grande expectativa que acaba em morte e morremos aos poucos diariamente, seja de amor, de ódio ou decepção. Diante disso só me resta concluir que alegria é entorpecente pra otimistas continuarem a ter esperança. Quando enfim os olhos se cerrarem definitivamente não haverá mais razão pra ter sido. Será que sempre há de ter uma razão pra tudo? No meu escuro, não há motivo aparente pro meu silêncio ou pra minha falta de fé. Na minha lucidez -falsa? - há amargura por ter entregue a armadura. Baixar a guarda causa dor e por isso bebo pra anestesiar minha sinestesia. A felicidade do pessimista tá dentro de uma garrafa de vodca. Engulo.
  Mil olhos me reprovarão quando por mil bocas me virem passar. No meu estado mais ebriamente sagaz os outros passam efêmeros, sorrindo pateticamente de canto com o cigarro preso entre os lábios, fingindo sentir um prazer na verdade inexistente. E permaneço sozinha. Ilusão é acreditar que não estamos sós quando somos todos náufragos dum mundo hipócrita que quer nos convencer a qualquer custo que vale a pena estar aqui, que vale a pena estar aí, que vale a duras penas se doar e abertamente sentir. Que vale a pena continuar buscando o que nem se sabe o quê só pra se achar importante, que de alguma maneira somos essenciais. Não somos. Na verdade ninguém se importa com seus bons costumes, sua benevolência, com sua campanha anual pra arrecadar comida pros mais fodidos que você no natal, só você se importa. Altruísmo é utopia de gente cega.
  No fim, a vida é a conta do bar duma mesa grande: a gente se empolga no começo, pede todo o cardápio, ri a toa de todos e pra todos sem preocupação alguma. Com o passar do tempo as pessoas vão se levantando, indo embora... Algumas deixam um trocado, outras não. Até que você se encontra sem juízo largado numa mesa com mil cadeiras vazias e uma conta cara demais pro seu bolso. Só que na vida não tem como pagar lavando pratos, na vida a gente paga enxugando as próprias lágrimas. Sempre sozinhos.

domingo, 26 de abril de 2015

Desce outra!


Preciso de um porre de amor ou de cachaça que me faça cambalear, pisar em falso, cair, errar o passo, mas que não deixe gosto amargo nem dê dor de cabeça.
Preciso de um porre de amor ou de cachaça que complique minha cabeça e bagunce o coração, mas que deixe a alma calma e os braços livres pra envolver num abraço o resto do mundo em que me acho.
Preciso de um porre de amor ou de cachaça que transcenda minha mente, que me faça soluçar e querer deitar entregue num colo acolhedor.
Preciso de um porre de amor ou de cachaça pra me perder por entre as ruas cantando alto os versos do Hélio sem me importar com olhares alheios, preu me largar por aí sem freio por ter encontrado em alguém ou no fundo do copo um combustível pra me queimar.
Preciso de um porre, apenas porre, porque no fim das contas amor e cachaça são sinônimos: a gente toma aos poucos e quando percebe tá entregue aos quatro ventos, indolor, entorpecido, desnorteado, subindo na mesa, falando merda com o coração na mão e um desejo enorme de que o momento não acabe. Mas acaba. E nenhum porre é igual ao outro. Viremos então a próxima dose! Garçom, reabre a comanda por favor que eu não tenho medo de ressaca.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Oração sem sujeito


  Abrir uma porta pra sair, fechar outras pra ninguém entrar. Limpar o quarto, fazer a cama, abrir a cortina, mudar o tom. Quantos verbos são precisos pra recomeçar? Quantos morrem na garganta por medo do efeito da causa? Morremos em verbos enquanto adjetivamos o coração.
  É tudo uma questão de gramática: usamos a sintaxe pra compreender a semântica, quando por vezes não há o que ser entendido. A semântica do ser é uma frase sinestésica e as metáforas que invento são desculpas pra não usar da sinceridade.
  Substituo o meu inteiro por uma fração indecifrável tentando justificar com metonímia o meu medo de uma nova entrega. É que em tempos de jogos ser objeto direto é perigoso, os outros preferem indiretas, preposições, obstáculos. Simplesmente não estou disposta a ler entrelinhas. Eu leio o abraço, os olhares e seus lábios quando estão junto aos meus. Leio a mão na cintura, a risada sincera depois da piada, o cheiro no cabelo que vai descendo pelo pescoço.
  A partir daí vou escrevendo mil histórias, nenhuma ainda com final, nenhuma ainda realmente feliz. Mas não paro de ler nunca,vou trocando de livro até que algum me faça passar da página dez, até que algum me renda horas de inspiração e frio na barriga, até que palavras doces escapem do meu punho e se estendam em beijos intermináveis.
  Pois bem! Decidi destrancar a alma e parar de engolir verbos. A quem interessar possa: entre sem bater, só traga cerveja, cigarro e sorrisos. Venha com bondade, não repara a bagunça! Me deixe com vontade. Pode deitar na cama, não precisa dizer que me ama, só precisa me querer de verdade, sem culpa, desculpas ou receio. Relaxa aí, te faço um café. Eu sou assim mesmo, tem medo não! Uma hora cê pega o jeito e eu largo a mesa pra comer na tua mão.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Esse dia quatro não é sobre você


De uma maneira displicente e invulgar fui me dando a outros como tentativa de fuga de mim mesma. Por entre tragos de bebida e cigarro, esbarrei em lembranças suas e me pus em lágrimas. Mas naquela segunda feira ao invés de digerir mágoas, devorei um livro, o primeiro de muitos que lerei sem comentar contigo as sensações que me despertam. Há tempos que não choro. Não por falta de motivo, mas por força de vontade. Recorri a velhos hábitos, como preencher a pulso firme e descoordenado essa folha em branco com minha caligrafia destreinada, quase infantil, tal qual minhas atitudes nos últimos meses. Foi então que me peguei na antevéspera do dia quatro, perdida no que poderíamos ter sido ao invés de procurar por palavras doces que descrevessem as sentimentalidades virtuosas que nos mantinham unidas - na tentativa de justificar o meu amor - como nos anos anteriores. E como uma epifania, meu peito reteve  o ar dos pulmões impregnados de fumaça densa e dissolveu as ataduras do meu coração. Vi ali minhas feridas expostas, sangrando, pulsando ódio e saudade, vi minh'alma frágil, sem pudor, quase virginal, nua, exceto pelo manto de medo que imperceptivelmente a envolvia. Observei os curativos e a armadura largados ao lado do meu corpo modificado pela tua ausência. Percebi minha fraqueza e notei em meus olhos refletidos no espelho uma humanidade jamais presente. Minhas feridas recentes, abertas, causadas pela tua compostura cruelmente infantil, abriram espaço pra um releitura profunda de quem sou e de quem quero me tornar. Tua passionalidade irresponsável rasgou meu eu em mil pedaços e juntou num mosaico abstrato as partes de mim que havia esquecido. O tempo não cura, mas ameniza a insanidade de amar demais. Eu ainda sangro, mas me libertei das ataduras que impediam de cicatrizar. Por vezes a saída pra dor do amor é se expor pra se enxergar. Se enxergar como indivíduo, refazer a matemática pra concluir que a gente pode ser mais uma vez um só. Ser um inteiro é melhor que ser dois fracionados. Para o próximo amor já aprendi a lição: não me doar a ponto de me esquecer, mas amar imensamente buscando agregar. Nesse quase aniversário de um namoro que morreu na praia, não te mandei mensagem nostálgica nem me afoguei em tristeza ou cachaça, me dei o melhor presente de todos: reatei comigo mesma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quarta de cinzas no meu quarto


é não se concentrar num livro, se viciar em redes sociais na esperança de que alguma informação chegue até a pessoa. é assistir um filme e notar que a mente tá longe, lá naqueles dias de frio com brigadeiro, abraço e beijo. é fumar desesperadamente pra que as horas passem mais rápido, pro dia ficar mais leve, a cabeça mais tonta, o coração mais sereno. é querer com todas as forças um copo de algo que não faça bem, de veneno ou de cachaça. é querer carnaval o ano inteiro pra não ter que lidar com as cinzas das próximas quartas, quintas ou segundas. é procurar em qualquer um algum tipo de afinidade pra ver se a merda do pensamento se ocupa com outro alguém. é ouvir sua buzina lá fora me convidando pra jantar e rapidamente lembrar que teu peugeout preto nunca mais vai estar na frente do portão. é arrotar solitude quando na verdade engoli solidão. é me desgraçar a cada dia pensando no que você possa estar fazendo e com quem. a saudade é essa agonia filha da puta que corrói cada parte do meu corpo e inebria o peito de desgosto e de desesperança. a saudade é essa preguiça de dividir esse texto em parágrafos e começar as frases com maiúsculas, correndo contra o tempo pra não perder a lembrança e esvair o sentimento. o carnaval acabou, esse amor não passou e a saudade ficou. queria eu poder ser foliã o ano inteiro pra conseguir esquecer o furdunço do meu coração.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Você não soube me amar


Desse meu jeito meio torto, louco e descompassado: amei. Amei você e sua bagagem. Acolhi suas mágoas, inseguranças, criancices. Amei teus insultos, as desconfianças, as bobagens e tudo o mais. Te coloquei no colo, pedi calma baixinho, calei sua voz gritando, peitei as confusões do teu peito. Anulei minhas vontades, inibi vaidades, engoli tuas verdades, rasguei minha garganta. Sustentei o choro, respondi com socos, esperneei minha amargura trancada. Se bem me conheço, como diria Nando Reis "eu não vou mais chorar, fiz o que pude". E o coração que era teu, fez-se ateu.
Você não soube me amar.
Com teu jeito sempre manso, pisou devagar no meu pranto e julgou inválido todo o meu (bem) querer. Com teu sofrimento romântico e a cabeça às avessas com meu espírito liberto, fechou os olhos pro meu lado doce sutil. Apontou pra mim sua metralhadora cheia de mágoas e atirou no nosso amor. Sem dó e com rancor.
Você não soube me amar.
Bem sei que não sou santa, pelo contrário. Meu maior pecado foi o orgulho que impediu que a fragilidade dessas linhas e de outras tantas fossem resguardadas em minh'alma sufocada e muda. Não sei falar, nunca soube. Você bem sabe. E no meio de tanta gente, e por entre garrafas, na respiração pesada do marlboro, esqueci que você nunca foi boa com entrelinhas. As entrelinhas do meu corpo fechado, da minha boca trêmula, da minha língua ferina, do meu vocabulário chulo, do meu silêncio poético.
Eu não soube te amar.
Você queria clareza, te respondia com incógnitas. Você queria doçura, mandava você virar gente. Que espécie de gente fui eu? Você me pedia um futuro, eu ainda remoendo o passado. Você queria mais um gole, te obrigava a engolir em seco. E eu pedia compreensão, leveza, mas meus ombros carregados e tensos não sabiam carregar teu querer.
Eu não soube te amar.
Fomos cúmplices até nas brigas, nos abraçávamos mais forte depois das ofensas trocadas, silenciávamos na cama o ressentimento. Nos levantamos a cada tropeço, insistimos nas boas lembranças, e não tinha um único dia sem um 'eu te amo' antes de dormir. Criamos uma vida, demos a cara a tapa, apanhamos. Choramos. Entrelaçamos, pernas, braços e espíritos. Viramos um nó. Nó que aperta minha garganta. Um nó apertado de uma relação tão fraca. Nó de marinheiro que dá mil voltas no mesmo porto, porque nele se fez lar, porque nele se fez seguro. E é tão duro sair de casa!
Soubemos amar.
De um jeito voraz e ao mesmo tempo passo a passo, instantaneamente trabalhado. Nosso amor foi aquela nossa cozinha do primeiro apartamento em que moramos: fizemos as compras, enchemos geladeira e armários, mas não sabíamos o que cozinhar. De tantas opções, morremos de fome, aquela fome de algo que não se sabe o que é e que sempre acaba com o humor quando não é saciada. E posso falar? Ainda tô faminta. Por não saber o que comer, desconto na sede, encho a cara e vomito tristezas. O estômago pede arrego, o peito irriga de pesar. E por entre outras bocas, outros braços, abraços, sexos e conversas, perdi. Perdi no meio da nossa cozinha a receita de como se encantar. Não faço ideia de como achar dentro de mim a fórmula de enxergar terceiros e deixar me apaixonar. Você esvaziou meu armário. Já não cozinho mais. Meu paladar rejeita outros sabores mesmo que já esteja cansado de comer sempre você. Quero dançar com outro par pra variar, mas quando percebo ensaio os passos que aprendi contigo. Então repito e mais uma vez te engulo.
Já não sei mais amar.